terça-feira, 14 de março de 2017

Galiza, uma "Nacionalidade Histórica" que Madrid deconstrói




Por José Manuel Barbosa
Em 1916 nascem as Irmandades da Fala, primeira organização político-cultural da Galiza que definem e reconhecem o País como Nação e como “Célula de Universalidade”. Posteriormente o movimento galeguista com o seu árduo labor político e cultural conseguem para a Galiza o reconhecimento pela Sociedade de Nações, antecessora da ONU, da sua condição de Nação em 16-18 de setembro de 1933 em Berna. O político galego Plácido Castro achegou informação e documentação ao Congresso de Nacionalidades Europeias para que este organismo dependente da SdN considerasse a existência duma Nação no noroeste da península Ibérica manifestada num vida coletiva com umas caraterísticas distintivas e originais que a identificam historicamente e no presente como tal. O CNE reconheceu e determinou seguindo a legislação que adequação a direito era plena o que manifestava o direito a uma administração nacional própria e ao seu livre desenvolvimento como Nação com direito a ser assim reconhecida internacionalmente. Foi com isso que a Galiza é reconhecida legalmente como Nacionalidade em épocas contemporâneas por uma organização de reconhecido prestígio e autoridade internacional com o direito a dispor da sua vida e do seu futuro.
Irmandades da Fala
Poucos anos depois, em 1936, a Galiza vota por maioria de 99’24% de votos afirmativos contra o 0’76% de votos negativos e um 0’98 de votos nulos o seu primeiro Estatuto de Autonomia após ser-lhe negada a sua condição de Reino em 1833. O total de galegos com direito a voto em junho de 1936 foi de 1.343.135 dos quais votaram 1.000.963 e um total de 993.351 manifestaram a sua vontade de auto-governo materializado por meio dum Estatuto com competências em matérias legislativas, judiciárias, económicas com uma fazenda própria com capacidade impositiva e para arrecadar tributos, reconhecimento do seu direito histórico e dum governo com capacidade executiva. Infelizmente um mês depois, o golpe de Estado do General Franco aborta toda tentativa autonomista e de reconhecimento dum auto-governo para a Galiza. Esta “Longa Noite de Pedra” em palavras do poeta Celso Emílio Ferreiro dura até 1975, ano em que morre o ditador e se começa novamente a elaboração dum novo Estatuto. O segundo. Este foi elaborado e votado em dezembro de 1980 entrando em vigor em abril de 1981.
Plácido Castro
No segundo Estatuto acrescentam-se as competências reconhecidas em 1936 para além de lhe serem reconhecida a condição de Nacionalidade no seu artigo primeiro:
ARTIGO 1
  1. Galiza, nacionalidade histórica, constitui-se em Comunidade Autónoma para aceder ao seu autogoverno, de conformidade coa Constituição Espanhola e com o presente Estatuto, que é a sua norma institucional básica.
Isto posiciona à Galiza num contexto ótimo para ser reconhecida internacionalmente com todas as dignidades. Se a isto acrescentamos que o Reino da Espanha está incluído dentro do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos os quais fazem parte do Sistema dos Direitos Humanos da atual Organização das Nações Unidas (ONU) no qual se reconhece no seu artigo primeiro o seguinte:
PRIMEIRA PARTE
Artigo 1.º
1. Todos os povos têm o direito a dispor deles mesmos. Em virtude deste direito, ELES DETERMINAM LIVREMENTE O SEU ESTATUTO POLÍTICO E DEDICAM-SE LIVREMENTE AO SEU DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO, SOCIAL E CULTURAL.
2. Para atingir os seus fins, todos os povos podem dispor livremente das suas riquezas e dos seus recursos naturais, sem prejuízo de quaisquer obrigações que decorrem da cooperação económica internacional, fundada sobre o princípio do interesse mútuo e do direito internacional. Em nenhum caso pode um povo ser privado dos seus meios de subsistência.
3. Os Estados Partes no presente Pacto, incluindo aqueles que têm a responsabilidade de administrar territórios não autónomos e territórios sob tutela, são chamados a promover a realização do direito dos povos a disporem de si mesmos e a respeitar esse direito, conforme às disposições da Carta das Nações Unidas.
Igualmente no Pacto internacional de Direitos económicos, sociais e culturais aprovados pela Assembleia Geral da ONU em 1966 no seu artigo 1.1 diz (1):
Artigo 1.1
PARTE I
Artigo 1º
§ 1. Todos os povos têm o direito à autodeterminação. Em virtude desse direito, determinam livremente seu estatuto político e asseguram livremente seu desenvolvimento económico, social e cultural
Igualmente no seu artigo 3º diz:
§3. Os Estados Membros no presente Pacto, inclusive aqueles que tenham a responsabilidade de administrar territórios não autónomos e territórios sob tutela, deverão promover o exercício do direito à autodeterminação e respeitar esse direito, em conformidade com as disposições da Carta das Nações Unidas.
Delegação galega que em 1933 conseguiu para a Galiza o reconhecimento como Nacionalidade pela Sociedade das Nações
Por outra parte a Constituição espanhola no seu Capítulo II: Sobre os tratados Internacionais diz (2):

CAPÍTULO III. DE LOS TRATADOS INTERNACIONALES.

Artículo 93.
Mediante Ley orgánica se podrá autorizar la celebración de Tratados por los que se atribuya a una organización o institución internacional el ejercicio de competencias derivadas de la Constitución. Corresponde a las Cortes Generales o al Gobierno, según los casos, la garantía del cumplimiento de estos Tratados y de las resoluciones emanadas de los organismos internacionales o supranacionales titulares de la cesión.
Artículo 94.
1. La prestación del consentimiento del Estado para obligarse por medio de Tratados o convenios requerirá la previa autorización de las Cortes Generales, en los siguientes casos:
a. Tratados de carácter político.
b.Tratados o convenios de carácter militar.
c.Tratados o convenios que afecten a la integridad territorial del Estado o a los derechos y deberes fundamentales establecidos en el Titulo primero.
d.Tratados o convenios que impliquen obligaciones financieras para la Hacienda Pública.
e.Tratados o convenios que supongan modificación o derogación de alguna Ley o exijan medidas legislativas para su ejecución.
2. El Congreso y el Senado serán inmediatamente informados de la conclusión de los restantes Tratados o convenios.
Artículo 96.1. Los tratados internacionales válidamente celebrados, una vez publicados oficialmente en España, FORMARÁN PARTE DEL ORDENAMIENTO INTERNO. SUS DISPOSICIONES SÓLO PODRÁN SER DEROGADAS, MODIFICADAS O SUSPENDIDAS EN LA FORMA PREVISTA EN LOS PROPRIOS TRATADOS O DE ACUERDO CON LAS NORMAS GENERALES DEL DERECHO INTERNACIONAL.
2. Para la denuncia de los tratados y convenios internacionales se utilizará el mismo procedimiento previsto para su aprobación en el artículo 94.
Documento administrativo da Sociedade das Naçoes pelo qual se reconhece a condiçao de Nacionalidade para a Galiza
Conclusão:
1- A Espanha está na ONU e aceita o ordenamento jurídico internacional.
2- A Espanha assinou o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos incluído dentro do Sistema dos Direitos Humanos da ONU. A Espanha assinou igualmente o Pacto internacional de Direitos económicos, sociais e culturais. Ambos tratados entraram em vigor em 19 de Dezembro de 1966.
3- A Constituição espanhola garante que a legislação internacional, nomeadamente a emanada da ONU à qual pertence de pleno direito, faz parte do seu ordenamento jurídico e portanto RECONHECE INDIRETAMENTE no seu artigo 96 o direito de AUTODETERMINAÇÃO dos povos ao serem estes tratados anteriormente citados (Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos e Pacto internacional de Direitos económicos, sociais e culturais) parte da legislação internacional à qual se vincula o Reino da Espanha, só podendo renunciar a ela derrogando-a, modificando-a ou suspendendo-a nas formas previstas pelos próprios tratados ou de acordo com as normas internacionais.
4- Se a Galiza (ou quaisquer outros territórios do Reino da Espanha) optar por exercer o seu direito de autodeterminação estaria de acordo com a legislação internacional que a Espanha aceita. Se o Estado ao que à Galiza pertence optasse por impedir, limitar ou obstaculizar esse direito, seria o Reino da Espanha o que estaria fazendo incumprimento a sua própria legislação e a legislação internacional dentro da qual se incluiu voluntariamente quando aceitou e assinou toda a legalidade emanada da ONU à qual pertence desde.
5- Se quaisquer outro Estado manifestar o seu apoio ao proceder do Reino da Espanha no que diz respeito a este assunto, estaria igualmente contrariando à legalidade internacional, sobre tudo se este Estado tiver assinado igualmente os mesmos tratados dos que falamos


















Galiza e Portugal: Cabeça e coração dum ser único




 Por José Manuel Barbosa

A definição de Nação tem dado muitas páginas nos livros de teoria política e mesmo nos livros de antropologia. É por isso por que há duas formas de perceber a ideia de Nação: a política que nos descobre um conceito de Nação próximo a ideia de Estado, daí a noção de Estado-Nação e vinculada à vontade; e a cultural, que nos leva a Nação constituída por um conjunto de pessoas com uma língua, uma tradição, uns usos culturais e hábitos psicológicos comuns, uns costumes manifestados na forma de perceber a vida tanto no laboral como no festivo, nas crenças ou na herança e numa história que une aos seus nacionais num determinado território reconhecido como próprio. Estas duas formas de perceber o que é uma Nação podemos identificá-las como da escola francesa, a primeira, e a escola alemã a segunda. Na primeira é a vontade dos indivíduos de construir a Nação que se comprometem numas instituições comuns que regulam a sua convivência. Esta vontade surge da sua livre eleição à hora de se constituírem ou bem pela sua separação duma entidade estatal já existente enquanto a segunda é o conceito de Nação objetiva baseada numa realidade viva localizada acima dos indivíduos e das vontades cuja identidade está sustentada em traços externos herdados duns antepassados comuns. Dessa realidade não é possível evadir-se por meio da vontade.
Se tomamos a primeira como referência, diremos que Portugal é uma Nação porque a vontade fez que fosse independente da Galiza medieval, porque os portugueses assim o quiseram durante mais de oitocentos anos desde a sua independência levada a cabo por Afonso Henriques. Da mesma maneira, a Galiza faria parte duma entidade político-administrativa superior denominada Reino da Espanha e à qual adere por inércia histórica. 
Mas se tivermos em conta o segundo conceito, a Galiza e Portugal fariam parte duma mesma Nação segundo os critérios de Fichte. Segundo eles tanto galegos como portugueses participam de uma série de elementos identitários comuns que os unem por cima de quaisquer diferenças políticas ou individuais. Podemos dar-lhe um repasse:

  • A Língua

A identidade da língua, considerada como uma única língua comum a galegos e portugueses pode vir identificada tanto do ponto de vista estritamente linguística como do ponto de vista político.
Se for a linguística a que determinasse a unidade da língua não teríamos ninguém que acreditasse na existência de duas línguas no ocidente peninsular ibérica. Tudo o que for identificado como diferença seria localizado como uma variação dialetal e/ou regional. Galegos e portugueses temos uma mesma língua sem qualquer dúvida e não há cientista que tenha a categoria para o negar. Rodrigues Lapa, Eugen Coseriu, Carolina Michäelis de Vasconcelos, Joan Coromines e todos os grandes vultos da filologia e da linguística reconheceram a realidade duma e única língua galega em origem e mas conhecida internacionalmente com o nome de português.

Há quem pense que nas últimas décadas a vontade dos galegos e das suas instituições é a de reconhecer a sua variante como uma língua “irmá pero diferente” da portuguesa mas essa vontade surge da necessidade de Madrid de desidentificar e separar ambas as variantes para favorecer a assimilação do chamado galego dentro do castelhano como um patois ou crioulo que pela sua debilidade e falta de prestígio não possa concorrer com a língua de imposição. E como já vimos que a vontade não é uma forma de conceber a Nação cultural mas o Estado-Nação, não devemos considerá-la. Ainda assim é de reconhecer que mesmo alguns dos personagens políticos mais importantes da separação linguística galego-portuguesa como o próprio Manuel Fraga Iribarne, Presidente da Galiza entre 1990 e 2005 reconheciam e falavam duma língua comum:

É um encontro a que nos chama a pertença geográfica a um mesmo espaço físico, a herança cultural de uma língua comum e um património cultural multissecular,….” (Fraga Iribarne: 1991)

A pesar disto ser assim, o velho político franquista dizia o mesmo pelas mesmas épocas mas para um público diferente:

É un encontro a que nos chama a pertenza xeográfica a un mesmo espazo físico, a herdanza cultural de línguas com raices comuns e un património cultural multisecular,...” (Fraga Iribarne: 1992)

A dia de hoje, o próprio e atual Presidente da “Xunta de Galicia” Alberto Nuñez Feijóo/Alberte Nunes Feijó manifesta o mesmo critério de unidade linguística galego-portuguesa nas Tv espanholas uma vez o movimento reintegracionista tem a suficiente força social como para pôr as cousas no seu lugar (1)

  • Hábitos psicológicos e forma de perceber a vida
Quando de um galego se diz que numa escada não se sabe se é que sobe ou é que baixa, é um castelhano que o diz. Um galego sempre sabe se sobre ou se baixa mas um castelhano desde fora nunca é que o sabe. Isto não tem maior transcendência se não fosse que a indefinição é um elemento identificativo de galegos mas também de portugueses; a ambiguidade, a diplomacia, a forma de dizer as cousas indiretas, as meias verdades, a “retranca”, esse humor no que nunca se diz o que se quer destacar mas que sempre fica evidente para as mentes inteligentes nada abundantes no centro peninsular…
É aquela história na que uma pessoa lhe faz uma pergunta comprometida ao galego e este responde:

Por uma parte, tu já vês, por outra….que queres que che diga mas o certo é que… quem sabe?”

Falamos igualmente do acordo e do trasacordo, essas variações de rumo que aplicamos quando a necessidade o requer perante uma decisão que temos de tomar mas que não temos toda a segurança. É o um “se por acaso...”, “Se calhar...”, “Nunca se sabe...”. Os nossos refrões fazem-nos visualizar essa caraterística psicológica:

Deus é bom e o demo não é mau”
Porque a Deus apreces, o demo não desprezes”

Mas sobre todos os elementos do nosso caráter comum está a saudade, cantada por poetas e descrita por filósofos. É uma forma de perceber a vida galega e portuguesa por excelência mas que inclui uma visão da vida romântica, lírica, poética e profundamente artística. Por isso é que a poesia lírica medieval faz parte da nossa identidade mais profunda.

  • As crenças, as tradições, usos culturais e costumes
Com certeza que se falo da submissão ao sobrenatural, à religiosidade profunda manifestada num conceito do transcendente que ultrapassa os sentidos e a razão, estou a falar da forma de ser dos portugueses. Mas também falo dos galegos que na sua festa da sua virgem, da sua santa ou santo, da sua romaria ao seu santuário, da festa da sua aldeia na que celebramos que esta divindade pré-cristão transformada em tal ou qual virgem nos faz comer a todos em família ou em comunidade. É a comida na que há que comer basicamente porco ou vitela como forma de manifestar a alegria comum.

Em Castela e em Andaluzia têm por costume beber vinho e bailar mas não não bebemos nem bailamos enquanto não tenhamos a barriga cheia. Só isso, prémio ao nosso trabalho do dia-a-dia, é o que nos põe contentes perante os demais: comer, e comer comida forte, hipo-calórica, poderosa, que mantém corpos que devem ser fortes porque historicamente é a terra a quem lhe devemos o esforço para que ela nos dê frutos. Para além disso, as filhós, as rabanadas ou torradas, os roscões ou pães de ló, as sopas de cavalo cansado, os cozidos, o polvo, o caldo, todo tipo de enchidos, presuntos, broas, pães de centeio, papas, etc…são as formas dos nossos alimentos que reconhecemos em ambas as beiras da raia…

Por outra parte, a cultura histórica também vincula com as crenças de galegos e portugueses de hoje. Somos a terra do granito que suportou antas, mamoas, pedras escritas, montes sagrados onde habitam ainda hoje as divindades esquecidas que um dia estavam nas nossas vidas e hoje dormem até que decidam acordar. Mouros, princesas com pés de cabra, cobras que acabam sendo princesas, seres feéricos de todo tipo e tamanho, seres mitológicos que vivem nos contos infantis mas também nas nossas vidas quotidianas, o não varrer para fora, o arco-íris que é o arco-da-velha porque a velha é a Terra que nos deu vida e é a matriz de todo, as nossas festas que cobrem todo o panorama festivo céltico: Magusto/Samhain, festa dos mortos onde estes vêm comer à nossas mesas, Ciclo de Natal/Solstício de inverno, quando celebramos o nascimento da luz; Carnaval e Candelária/Imbolc quando casam os passarinhos mas também crítica ao poder; Máias ou Máios/Beltaine quando com lume queimamos o boneco verde e chega o verão; São João/Solstício de verão quando celebramos o triunfo da luz por meio do fogo purificador…..
As bruxas e meigas, o Além, a morte, os que veem o futuro, Todo isso e muito mais somos os galegos e os portugueses e não nos reconhecemos como unidade porque desde há bem poucos anos o direito ao ensino faz que sejam os Estados-Nação os que transmitam a cultura e a educação mas essa não é natural mas artificial qual comida de lata ou hambúrguer de McDonals. Esse direito não é o mau, que é um direito, mas é o Estado que desrespeita os povos e as suas raízes o que não é o adequado para nos transmitir os conhecimentos do passado. Aos galegos dizem-nos que somos espanhóis que traduzido à linguagem madrilena é como dizer que somos castelhanos e portanto temos uma visão distorcida de nós próprios; aos portugueses diz-se que os galegos são mais uns espanhóis que falam castelhano e portanto uns maus irmãos não escolhidos mas não uns amigos que podemos escolher…. A distorção acrescenta-se aos olhos dos outros nós-próprios. E por isso chegamos à conclusão de que já não somos o mesmo povo, mas dous povos de costas viradas cujos problemas não devemos nem queremos partilhar.
  • Um território comum
Sobre o espaço comum que partilhamos sabemos que a nossa cultura nasceu no País do granito, nas terras rochosas do noroeste, terras verdes de prados e florestas onde o chamado Maciço Galaico-Duriense se apresenta como uma continuação do Cordal Cantábrico. É na Serra do Aire onde estas terras célticas deixas lugar às terras do sul estremenho, alentejano e algarvio que por tradição humana está mais vinculada ao mundo sulista do que ao mundo galaico nortenho mas que a história quis que se cristianizassem e se galaiquizassem. É o Portugal sulista que embora conservar um ar e uma tradição meridional e andaluzi o seu espírito é plenamente português. Mas isto é uma visão que temos de hoje porque em épocas anteriores ao Islão peninsular essas terras eram as que viram nascer o Vaso Campaniforme, o que viu nascer o megalitismo que tanta identidade nos dá aos galegos. Foram aliás, as terras da expansão sueva cujo Reino foi conhecido e reconhecido como o primeiro “Gallaeciense Regnum”. Todo isto conforma essa faixa marítima ocidental que vai dar a esse mar imenso e promissor chamado Atlântico, o Mar da Atlântida, o qual lhe deu viabilidade a Portugal como Nação e ajudou na expansão da nossa língua e da nossa cultura. Castelão, o nosso grande Daniel Castelão, disse uma vez no seu Sempre em Galiza, que Portugal encheu o mundo de nomes galegos… e assim foi, com certeza, ou pelo menos assim o vemos muitos galegos. E é esse mar o que dá tamanho de País grande a Portugal cujo espaço terrestre é um, mas o seu espaço marítimo sempre foi muito mais.

À Galiza esse mar também lhe deu expansão mas não territorial embora sim económica. É o mar das nossas riquezas e das nossas belezas, de ondas selvagens e de profundezas misteriosas que converteu à Galiza quando aqui se podia pescar, na terceira grande potência pesqueira do mundo. É o mar da Galiza marinheira, tão importante para a nossa realidade identitária como pode ser para Portugal.
  • Uma História comum
Neste tema já há pouca discrepância. Desde que os galaicos entram na História, os portugueses entram como galaicos num princípio, embora os lusitanos existam como uma prolongação dos primeiros ou vice-versa. Se considerarmos que o Portugal de hoje é um Estado galaico, e não lusitano por ter sido do norte galaico donde partiu a origem do país, a língua, a estrutura e organização territorial, a legalidade e todo o demais, teremos que partilhamos historicamente tudo: a Kalláikia céltica, a Gallaecia pré-romana, o Reino da Galiza medieval mal identificado e mal chamado de Reino de Astúrias, a continuação do Reino da Galiza também mal identificado e mal chamado de Reino de Leão… tudo, até que nasceu o conceito de Nação que se diz defendeu o nacionalismo francês e também Giuseppe Mazzini mas que já no século XII Afonso Henriques se viu na obriga de exercer para defender o seu direito a governar o seu novo Reino, assim reconhecido pelo Papa. Nasceu Portugal dum retalho da Galiza e nasceu como um ato de vontade política mas não como uma diferenciação étnica. Tal é assim que Agostinho da Silva, ideólogo da Lusofonia disse que “os portugueses são uns galegos aperfeiçoados”. Se é assim é que os galegos somos uns portugueses distorcidos por Castela mas não deixamos de ser mais uns portugueses descarrilados que precisamos nos encontrarmos com o resto da nossa gente para nos vermos onde devemos estar: juntos.


Poderíamos continuar narrando e debulhando esta nossa realidade comum, mas veja o leitor que se fizermos pormenorizadamente este trabalho de identificação galaico-portuguesa não chegaria um simples artigo para falarmos do tema. Um livro completo falando de cada um dos pormenores aqui narrados seria muito interessante e muito laborioso mas completamente útil para o nosso reconhecimento e a boa fé que totalmente certeiro na nossa auto-identificação não como dous povos mas como um só.
Como pode comprovar o leitor, a nossa vontade não é tanto narrar esta realidade assumida e conhecida por toda mente bem pensante quanto comunicar a necessidade de nos implicarmos no ser comum. Não pode haver português que ignore a Galiza, a sua realidade e a sua problemática como também não pode haver galego que ignore a de Portugal.
Bibliografia:
Fraga Iribarne, M: A Galiza e Portugal no Marco Europeu. Ed. Xunta de Galiza. 1991. Pag. 7 Tirado da Comunicação de Manuel Fraga Iribarne à Academia da História de Portugal com motivo da sua receção como Académico de Mérito. Lisboa 25 de Janeiro de 1991
Fraga Iribarne, M: Jornal do Arco Atlântico. 23 de Outubro de 1992. nº 1 Página 3


Linkografia:

quarta-feira, 1 de março de 2017

O acosso: a violência "democrática"





Por José Manuel Barbosa



De todos é conhecida a circunstância da existência de ambientes laborais ou sociais difíceis por falta de harmonia ou por que há alguém que difunde ideias contrárias à verdade contra certas pessoas pelo simples feito de ser diferente dos demais, sendo esta diferença por razões múltiplas. São estes os rumores que nunca são saudáveis para as pessoas que o sofrem, nem para o ambiente laboral ou social, nem finalmente para quem leva a cabo esta prática nociva a qual acaba voltando-se contra quem a pratica se o ofendido for o suficientemente inteligente e forte como para reagir em consequência e adequadamente.

Na maior parte dos casos, os rumores nunca são contrastados e nunca são objetivos. Sempre atendem aos baixos sentimentos e baixos instintos de inveja, medo, neurose, angústia, frustração, inseguranças e altas doses de violência reprimida originadas nas misérias humanas que na maior parte dos casos fazem ou fizeram parte da vida dos agressores. Todo isto é transmitido com malícia contra pessoas de valor, fazendo destas pessoas indivíduos feridos e em muitos casos solitários com uma vulnerabilidade importante.
O objetivo que um terapeuta pode perceber na pessoa que pratica o rumor é tirar fora do corpo a sua frustração reprimida, às vezes dando-se a si próprio uma imagem de pessoa perfeita como forma de defesa e para evitar a crítica dos outros. Mas de cara a fora o ofensor tem como fim intimidar, submeter, acovardar e impedir que a sua vítima possa exprimir os seus valores e as suas capacidades as quais sempre são uma ameaça muito grande para a auto-estima do primeiro. O poder esconso do agressor favorece a sua tomada de poder perante o agredido, que justamente por causa de essa falta de manifestação clara do assaltante, não sabe ou não pode defender-se adequadamente, perdendo credibilidade aos olhos do público.
Este tipo de agressores são difíceis de evitar, embora se precisarem altas doses de paciência, no melhor dos casos. Muito comummente a indisciplina e a rebeldia contra o atacante são inviáveis ou simplesmente inúteis, especialmente se este é uma pessoa com poder laboral, social ou político, com certa credibilidade no ambiente que o rodeia, o qual torna em contraproducente qualquer tipo de resistência ao mal. Se o agredido tomar como estratégia a mesma forma de comportamento crítico contra o seu ofensor, independentemente se esta é real ou não, a pessoa atacada vai favorecer a credibilidade do malvado que pode ver-se acrescentada entre o público observador, pois normalmente a sua imagem é pulcra nas formas protegendo a sua imagem real de sujidade moral. Deste jeito o bom acaba aparecendo como mau e o mau acaba sendo bem considerado por todos como se realmente fosse ele o agredido. O mundo ao revés e a transparência do assunto sofrendo graças à habilidade do perverso bem-vestido.

Uma outra solução é falar com alguém que esteja laboral ou social por cima do agressor ou mesmo com parte do público que poderia compreender a injustiça. Neste tipo de casos as pessoas recorridas para a ajuda vão ter dificuldade para discernir quem é realmente o malfeitor e quem o injuriado. Se a pessoa ou pessoas consultadas tiverem em boa consideração o acossador, cousa provável pela habilidade do psicopata, o pedido de ajuda pode-se converter em uma arma de duplo gume para quem realmente precisar a ajuda, por isso a desesperação não é de muita utilidade. Este comportamento de defesa pode ser um argumento para que o maldoso, tranquilo ele no seu posto de poder, argua que a sua vítima está doente ou algo é que lhe acontece ao pobre incauto. Talvez com um bom conselho paternal de acudir a um bom médico dos nervos, psicologista ou psiquiatra acrescentaria a sua boa imagem... e todos veriam como uma muito boa pessoa que responde com paternalismo a uma feia atitude de alguém que parece estar desequilibrado... e na realidade só se quer defender.
Com certeza, o facto de poder desvendar o problema é uma necessidade imperiosa para o agredido. Talvez evidenciando o problema com humor e ironia, tirando-lhe importância. Ora, se o agressor se sente descoberto ou o problema transcende fora do controlo do insano assaltante, o assunto poderia mesmo acabar muito mal para quem pratica a ironia, a qual nem sempre senta bem a quem a ouve porque toca onde dói; como também pode acabar mal para ambas as partes... Mas a necessidade é que não acabe mal para o que sofre o acosso que é realmente quem não merece esta situação. Talvez se der a circunstância de chegar-se a um ponto de tamanho dano e afronta que a pessoa isolada acabar realmente precisando ajuda médica, caindo na paranóia, na insânia e no desatino. Se isso for assim é que a finalidade do instigador cumpre os seus objetivos últimos.
Mas há ainda uma terceira via. Esta seria se o agredido se fizer muito rígido na sua vida diária, no trabalho e na vida pessoal, com o fim de esquivar as mentiras que sobre ele se dizem. Um deverá renunciar a muitas cousas que a pessoa do comum tem como normais e constitutivas da sua liberdade. Deverá ser uma vida de virtude que contraste com a ideia lançada pelo malvado ofensor e que este fique em evidência para a gente que rodeia a ambos, mas isto supõe uma importante deterioração pelo excesso de coerência, pelas renúncias por um rígido uso da paciência que pode levar mesmo à doença e à falta de liberdade. Se nos remetermos à história, veremos que são os grandes homens e grandes mulheres cuja vida é um modelo para a sociedade os que levaram este tipo de vida paradigmática, muitas vezes sem eles quererem, acossados por uma situação política, social, religiosa, bélica e de perseguição. Todos temos exemplos na nossa cabeça: presos políticos e de consciência, lutadores pela justiça e a liberdade, heterodoxos que acabam sendo eliminados, santificados ou quase divinizados, perseguidos de todo tipo....A sua força e a sua vontade de não se renderem perante a injustiça, a maldade ou simplesmente contra a mentira que suja a sua imagem, não deixa lugar para outra saída diferente de aquela que vai acabar fazendo dele um pessoa destacada e virtuosa, prodigiosa e perfeita, às vezes contra a sua própria vontade. A maior acosso histórico maior ressalto histórico e a necessidade de apagamento do seu pensamento por parte dos inquisidores converte-se finalmente em uma situação de destaque nunca pensada por quem quis reprimir o seu pensamento.


No mundo no que vivemos, em luta constante entre os poderosos e os que não têm mais poder do que a sua força pessoal e individual, a perseguição faz-se fundamentalmente por motivos ideológicos. O elemento ideológico é que precisam manter interiormente à vez que necessitam ocultar interiormente sem este ser evidente de cara ao exterior. As razões desta discrição são, para os agredidos, evitar as ameaças e os ataques pessoais, evitar a perda do seu trabalho, do prestígio pessoal ou evitar o vilipêndio político público como tem sido em alguns casos. Este tem sido historicamente e ainda é em alguns caos o de muitos reintegracionistas que exercem o seu labor docente e devem ensinar “galego”.... tentando equilibrar coerência e liberdade de cátedra com "profissionalismo". Em alguns casos às vezes em nada ilegais, a administração nunca se implica com o acosso nem com o acossado mas sim implica outros agentes sociais como as associações de pais ou as filiações políticas de alguns deles. Nestes casos aproveita-se a falta de conhecimento sobre o assunto e em muitos casos a falta de formação de muitos deles, encirrando-os para o desordem e às vezes para exercerem a violência não necessariamente física, embora sim psicológica. A administração neste casos não tem vontade de aplicar medidas pacificadoras nem conciliadoras voltando-se repentinamente muito "liberal" no seu "laissez faire..." e reivindicando a liberdade, mas dos agressores. A evidência do pensamento sócio-cultural ou político de algumas pessoas podem dar pé a ataques importantes que se em alguns casos são facilmente desmontáveis, em outros, mais difíceis, acabam por gerar ações pré-democráticas ou mesmo condutas que poderíamos reconhecer na Alemanha dos anos 30, chegando ao ponto de comportamentos delituosos por parte das administrações. A habilidade exercida desde os escritórios faz desviar os ataques para além do que publicamente não se pode atacar, mas destina as energias a outros aspectos mais sensíveis e vulneráveis, já não laborais ou profissionais mas pessoais.
Tradicionalmente a melhor defesa tem sido a agrupação de interessados para defender direitos pessoais, deveres legais e dignidades, mas na Galiza de finais do XX e começos do XXI não há associação sindical, social ou política que aceite facilmente este tipo de pugnas democráticas sob pena de cair na marginalização política. O objetivo por parte da administração sempre é evitar a posta em evidência do problema na sociedade, que também historicamente acaba implicando ao público e desvendando a terrível injustiça da realidade galega, sem forças políticas reais que defendam uma prática comum em todo o mundo civilizado. Esta administração prefere sacrificar o bem-estar e a prosperidade dos galegos antes do que ceder perante problemas que na realidade não são problemas, mas oportunidades de progresso e de crescimento social e individual.

Quando este tipo de acossos é tão grande e tão invisível que não pode ser possível descobrir o malvado rosto do agressor, individual, coletivo ou administrativo, o melhor é mudar para uma atividade laboral que não implique qualquer tipo de compromisso mas na Galiza temos um grave obstáculo, também criado pela própria administração, não sabemos se por inépcia ou pelo interesse de construir uma sociedade à imagem e semelhança dos falsos "democratas" que exercem o poder. Este dirigismo desmontaria a falácia da suposta sociedade plural e ideologicamente livre na que vivemos e aliás a falsidade do suposto pensamento partidário liberal que é como se auto-definem os nossos eternos governantes. A este grave problema de modelo social, acrescenta-se a grande rigidez laboral e a da dificuldade para mudar de emprego ou para auto-empregar-se. Portanto, são a imigração e/ou desemprego armas que a administração usa contra os dissidentes. Sair adiante é muito difícil em uma estrutura administrativa tão rígida e tão excludente como é a do Reino da Espanha, onde a Galiza está imersa e submersa, daí a ampla hostilidade que tem esta armação estadual tão artificial e incómoda em contextos como o basco ou o catalão onde a oposição a esta situação e a este construto é muito grande. 

Na Galiza existe também esta oposição, mas é desfavorecida por várias razões: A primeira é o abuso de poder, que leva à manipulação informativa e à corrução, derivando no voto do medo, no voto manipulado e no pagamento de favores; a segunda razão é a falta de adequação e de inteligência das organizações que se dizem alternativas ou opositoras que nunca tiveram vocação de governo nem estratégia para chegar a ele. 
O impossível caminho da prosperidade está obstaculizado pelos partidos governantes. De entre eles estão os que têm a responsabilidade de gerir a administração. Estes gerem para guiar e moldar a sociedade seguindo parâmetros quase soviéticos, corporativistas, rígidos e sem qualquer dúvida estatistas, longe dos preceitos “liberais” que dizem seguir. Outros, os que se dizem alternativos ou opositores, regidos por preceitos dogmáticos e declaradamente defensores, igualmente, de uma rigidez ideológica grande que chega ao absolutismo administrativo em alguns casos e à exclusão das disidências. Nesse contexto a dificuldade dos heterodoxos para achar trabalho, a facilidade para emigrar e as situações de acosso estão relacionadas entre si diretamente. Esta situação de abuso de poder favorece os acossos contra os que legitimamente pensam diferente da estreita ortodoxia que impõe um poder político e nacionalitário que se diz democrático mas que só se pode definir assim nas aparências e que em pouco se parece aos modelos políticos do resto dos Estados civilizados europeus onde após se livrarem do autoritarismo durante o S. XX, ficaram na gaveta da História.
O rumor é fácil contra os dissidentes. Todos eles são maus por definição e estes não têm muita viabilidade de que a sua contestação chegue aonde tem de chegar. O rumor têm um fácil caminho de rosas que fere a boa imagem das pessoas que sofrem no silêncio social os estigmas do menosprezo e a falta de liberdade. As suas imagens são cozinhadas convenientemente nos escritórios da nova inquisição espanhola que nunca deixou de existir e que de nova tem pouco ou nada.


terça-feira, 20 de setembro de 2016

Carta de Castelao e Suarez Picalho a Salazar

R. Suarez Picalho
 
A. Daniel R. Castelão
Por Afonso Daniel R. Castelão e Ramón Suárez Picalho 
In Nova Galiza, n.º 2 (20-IV-1937)
Como vosselência não deixaria chegar ao povo português a voz dos patriotas galegos, queremos que, pelo menos, chegue a vosselência a queixa dorida de dois galegos que sempre amaram Portugal. Asseguram que vosselência crê em Deus. Não o sabemos… E não o sabemos porque Deus ―infinitamente bom, sábio, justo e, ademais, imortal― não quis ser Ditador e concedeu-nos o livre arbítrio para que nós mesmos buscássemos o caminho da felicidade, enquanto que vosselência ―cativo verme, que se considera feito à imagem e semelhança de Deus― não teve dúvida em aprisionar a liberdade do povo português, a asfixiar a livre emissão do pensamento e submeter a nação portuguesa ao seu capricho. Grande pecado de soberba, senhor Ditador! Não sabemos se vosselência é um Ditador tão vaidoso como Mussolini e Hitler (vemos que não gosta tanto dos fotógrafos); mais, ainda que o fosse, não cremos que vosselência pretenda tapar com a sua figura os progenitores da Pátria lusa. Eles conquistaram a independência da Nação portuguesa e vosselência está jogando-a agora na roleta internacional, em conluio com os inimigos da liberdade.
Não sabemos se a História perdoará os seus delitos, tão graciosamente como a mais alta hieraquia da Igreja lhe perdoa os seus pecados. Contudo, não se julgue seguro no castelo de fumo que a imaginação de vosselência criou, porque o povo tem um sentido incoercível de justiça e do seu cerne podem surgir juízes terrivelmente vingativos. Mas no entanto é forçoso reconhecer que vosselência manda hoje em Portugal. Por que ajuda vosselência os militares espanhóis, que se ergueram em armas contra o Poder legitimamente constituído? Mediu vosselência os riscos que de semelhante ajuda podem derivar para o Estado português? Porque a beligerância de Portugal na guerra civil espanhola é, simplesmente, uma imprudência temerária, que não abona o talento de vosselência. Tenha vosselência por bem seguro, além do mais, que a Espanha vai ser a campa do fascismo internacional, porque vencer a um povo em armas, dentro do próprio território, não é vencer a força máxima do seu pensamento nem matar a razão que o assiste. A luz das estrelas não se apagará soprando desde Roma. Agora bem; as ajudas fascistas prolongarão a guerra e agravarão os seus resultados, em prejuízo, naturalmente, das concepções que vosselência defende.
Mas nós iremos falar somente como galegos para que apareça mais avultada a gravíssima intervenção de vosselência. Sabe vosselência que Galiza tem todos os atributos de uma nacionalidade: língua, terra, história, arte, espírito, etc., e que, portanto, seria fácil fomentar ali um ideal patriótico de carácter separatista; mas nós aspirávamos, modestamente, a uma simples autonomia que garantisse o livre desenvolvimento da cultura autóctone e que nos permitisse resolver os problemas vitais que a morfologia social e económica de Galiza tem estabelecidos. Sabe vosselência que Galiza apresentou às Cortes da República espanhola, três dias antes de rebentar o movimento subversivo, um Estatuto autonómico proposto pela quase totalidade dos Concelhos e aprovado, em plebiscito recente, por setenta e cinco por cento do Corpo eleitoral; ou seja, depois de vencer com o mais rigoroso zelo as condições que a Constituição exige. Crê vosselência, senhor Professor de Direito, que nós realizámos algum atentado criminal? Pois a fronteira portuguesa não se abriu para os autonomistas galegos, que fugiam da morte, negando-lhes vosselência o direito de asilo a homens que viviam dentro da Lei e que não cometeram maior delito do que defendê-la. E a polícia de vosselência, a polícia de um país que aboliu a pena capital, entregou muitos galegos para que fossem assassinados. Sabe vosselência que Portugal reclamou e conquistou, violentamente, a sua independência nacional, mais do que para romper a unidade hispânica, para não se submeter à tirania centralista. Portugal não queria morrer assimilado por Castela, e num arroubo de génio rompeu as amarras familiares, pediu separação de bens e foi viver a sua vida na melhor frente do lar comum, na grande frente do Atlântico. Não há dúvida que foi Portugal quem quebrou a unidade hispânica. E fez bem. Agora, senhor Professor de Direito, sabe vosselência que o “motivo patriótico” que invocam os militares espanhóis, para justificarem o seu crime, foi provocado pela generosidade constitucional, pois, segundo eles, a concessão das autonomias regionais põe em perigo a “sagrada unidade da pátria”, quando, na verdade, serve para fortificá-la. Sabe vosselência que os militares facciosos defendem, somente, um sistema, um sistema unitário e centralista, que causou a perda do nosso império colonial depois de desintegrar a Península e acirrar novos separatismos. Sabe vosselência que esses militares desprezam olimpicamente Portugal, sem o conhecer, e guardam no seu interior um anseio irreprimível de reconquistá-lo pela força, enquanto que os povos autónomos da República espanhola seriam sempre uma garantia da independência de Portugal e um estímulo eficaz de aliança peninsular. Sabe vosselência que o triunfo do fascismo em Espanha supõe o regresso de Catalunha, Euzcadi** e Galiza à tirania centralista, tirania que Portugal não suportou. E não falamos do que a Portugal pode sobrevir-lhe do triunfo das ideias totalitaristas e a participação de uma Espanha ensoberbecida no concerto europeu. Crê, vosselência, senhor Ditador, que Portugal pode dignamente ajudar os militares espanhóis no afã de abolir as autonomias e contribuir para a morte da democracia na Europa? Pois vosselência ajuda a esses militares, concede asilo generoso aos facciosos e aos políticos do velho sistema, convertendo Portugal em “galinheiro de Espanha”. Sabe vosselência, apesar de ser judeu, que Galiza e Portugal formam, etnicamente, um mesmo povo. Foram-no no amanhecer da História e caminharam juntos muito tempo, a falar e a cantar no mesmo idioma. Juntos ergueram um dos mais belos momentos do mundo: a grande poesia lírica dos Cancioneiros galaico-portugueses. Juntos criámos uma cultura e um modo de vida. E o rio Minho era o nosso pai. Sabe vosselência que ainda depois da malfadada separação, Galiza e Portugal queriam-se como dois namorados. Portugal era o moço forte, que partiu para a guerra e Galiza foi a moça que ficou a tecer saudades. Galiza dera a Portugal, como prenda de amor, a fala e a arte; Portugal deu muitas vezes a Galiza o socorro do seu braço forte. Sabe vosselência que a separação foi desventurada. A Portugal faltou-lhe a força “frenética” de Galiza e enloqueceu; à Galiza faltou-lhe a força “simpática” de Portugal e esmoreceu. A Portugal faltou-lhe o “caminho estrelado da Europa” e à Galiza faltou-lhe a continuidade na História. Portugal esqueceu-se da Galiza e desgastou o seu sangue com misturas de cor; Galiza esqueceu-se de Portugal e ficou estéril para conceber. Pois bem, senhor Oliveira: sabe vosselência que os galeguistas éramos algo mais que políticos. Respeitávamos ¾como não!¾ a fronteira que separa os dois Estados peninsulares: mas queríamos asas para voar e comunicarmos convosco, sobre o Minho, por cima dos carabineiros e dos guardas fiscais. Queríamos voltar a falar e cantar no mesmo idioma. Com canto amor pensávamos em Portugal! Deve saber vosselência que o nosso amor a Portugal valeu-nos o ódio dos chamados “nacionalistas” espanhóis e que foi justamente esse amor o delito mais grave que se nos imputa. Crê vosselência, senhor Oliveira, que os galeguistas estávamos infectados de alguma enfermidade perigosa para o povo português? Pois vosselência tratou-nos como empestados, metendo galeguistas em cadeias imundas ou entregando-nos aos assassinos da “Falange Espanhola”. Sabe vosselência que os intelectuais portugueses e galegos começavam a formarem uma comunidade cultural que seria outro expoente da nossa estirpe atlântica. Chamávamo-nos “irmãos”, e Rosalía de Castro era o “corpo santo da saudade”. Um poeta amigo de vosselência, quis engaiolar a Galiza com este chamamento: “Deixa Castela e vem a nós!” Sabe vosselência que os galeguistas fechávamos os ouvidos a todo chamamento ilícito; mas queríamos ser fiéis aos legados da tradição, e cada vez nos sentíamos mais empurrados face a Portugal. O rio Minho queria juntar-nos de novo. Sabe vosselência que os jornais portugueses, submetidos à censura governativa, seguiram com simpatia os incidentes do movimento autonomista em Galiza e não dissimularam o seu contentamento ante o resultado favorável do plebiscito estatutário. Outro tanto fizeram já quando se resolveu o pleito catalão. Tudo nos fazia supor que Portugal ansiava uma estruturação federativa do Estado espanhol, e nós sonhávamos, para quê negá-lo, com que algum dia se consagrasse definitivamente a irmandade galaico-portuguesa. Pois bem, senhor Oliveira: vosselência matou as nossas ilusões. Crê vosselência que se pode ajudar descaradamente aos imperialistas espanhóis? Pois vosselência tornou-se cúmplice desses assassinos que cometeram em Espanha o crime mais arrepiante que a História regista. E vosselência fechou as portas, sempre abertas, da nossa República, aos seus próprios amigos, que algum dia renderão contas ante a justiça inexorável do povo português. Sabe vosselência que na Galiza, ainda irmã de Portugal, cometeram-se muitos milhares de assassinatos. Massacrou-se o melhor e mais puro da nossa mocidade. Fuzilaram-se centenas de mulheres. Mataram-se rapazes cheios de vida na presença de seus pais. As estradas apareciam, e ainda aparecem, diariamente orladas de cadáveres desfeitos, que não podem identificar-se. Sacavam-se da cadeia os presos inocentes para serem assassinados pela noite. As autoridades ordenavam fuzilamentos sem prévia formação de causa. Enfim; abonda dizer que era uma honra ser julgado e fuzilado “oficialmente”. Sabe vosselência que falamos em tempo passado, mas que ainda hoje continua o massacre dos cidadãos galegos. Pelos jornais da nossa Terra, submetidos ao controlo militar, verá vosselência a insaciável criminalidade dos seus aliados e amigos. Sabe vosselência que para reconstruir o nosso lar desfeito provavelmente não nos fica mais que a reserva dos galegos que andam pelo mundo. Pois bem; estes galegos vingarão os nossos mártires e criarão uma nova Galiza que já não medirá sonetos em louvor de Portugal. Crê vosselência que os bons galegos, enlutados para sempre, podem viver sem amaldiçoar? Pois nós dizemos-lhe que vosselência causou o luto de muitas famílias galegas por não abrir generosamente as portas de Portugal. E dizemos-lhe mais: vosselência será para os sobreviventes de Galiza algo menos que um assassino; será um cúmplice de assassinos.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Como e quem nos manipula?






Por José Manuel Barbosa
(Ver: A manipulação do ser humano através da linguagem)
A manipulação é um dos mecanismos aos que estamos submetidos no mundo que vivemos. A guerra é substituída pela política na Era da democracia o qual não significa a ausência da agressividade mas tudo o contrário. A agressividade converte-se numa arma subtil tanto no pessoal quanto no social e político. Perante isso cumpre reconhecermos os mecanismos, as estratégias, as formas e os modos para nos podermos mexer entre as espadas. É de obrigada aprendizagem para nos podermos defender bem.

Nestes momentos de destruição da Galiza de todos os pontos de vista vejamos como é que age o poder connosco para que a nossa destruição seja totalmente eficaz. De nós depende o sabermos contrapesar essa energia negativa e convertermo-la em energia neutra.
Os dez princípios usados pelos manipuladores e pelos psicopatas segundo nos informam os psicólogos podem dar-nos informação do que se faz com os galegos.
Vejamos a que estamos submetidos:

1- Volver-te tolo com enganos: "Isso não aconteceu nunca", "imaginache isso", "Volviche-te tolo", "Estas errado".... Serve para distorcer o teu sentido da realidade tentando bombardear a tua auto-confiança e impede a tua defesa frente o abuso.
(O paradigma historiográfico castelhanista em que a Galiza não existe na História é um exemplo. Se falas do "Gallaeciense Regnum", se falas dos celtas, se falas dum País medieval soberano.... são imaginações de historiadores que baseiam as suas teses na Ciência Fição)
Mapa do Historiador castelhano Modesto Lafuente do seu livro "Historia General de España" editado entre 1850 e 1867 onde se pode ver a tradução que ele faz do nome que os muçulmanos lhe davam ao NW peninsular. A "Jalikiah2 árabe é traduzida por "Reino de León"

2- Projetar a culpa em ti e não em quem te está a manipular: "A culpa é tua", "A mim que me contas"... Tenta descarregar toda a responsabilidade em um e livrar-se dela o/a manipulador/a
(Os incêndios são culpa da cultura galega, a cultura do lume; os galegos são os culpáveis dos incêndios porque sempre há alguém que por uns euros é capaz de pôr-lhe lume a um monte. Os galegos são parvos porque sempre votam ao Pepé que não faz mais do que fazer-lhes dano pelo que os galegos são uns masoquistas que não merecem crédito..)

3- Tirar as cousas de contexto sem reconhecer os matizes de uma manifestação ou as múltiplas formas de perceber um assunto.
(Lembrais a notícia que se dava nos média da imposição aos escolares para apreenderem o hino galego escrito por um tal "Arturo" Pondal e no que se dizia que os que não sabiam falar galego eram "imbecis e escuros"?)


4- Mudar as regras de jogo ou utilizar duas varas de medir. O que vale para mim não serve para ti. (Quintana não pode negociar com um empresário sobre os eólicos... mas Feijó pode enlear-se com um narco ou o Rajoi pode estar no iate de outro... No primeiro caso "não se pode tolerar", no segundo e terceiro "isso não tem importância". Também poderíamos falar das duas varas de medir quando dos assuntos da língua falarmos: o bilinguismo está bem para os galegos mas para os demais não... ou como disse um parlamentar catalão num dos últimos debates: "Vcs, (dirigindo-se aos parlamentares do Pepé) são monolingues que querem que nós, bilingues, sejamos trilingues")
5- Desviar o tema e não querer ouvir o que um quer dizer deixando a tua opinião sem comunicar e fazendo-che ver que o que pensas não tem importância. (As manifestações dos tratoristas galegos não saem nos informativos... as de Sevilha ocupam 20' do Telejornal da noite; na época do "Prestige" censuramos o que diz a gente, o presidente do governo não vai à Galiza porque esse assunto está controlado... etc.. Falamos dos problemas do Pais Basco e de Catalunha... os problemas galegos não nos importamos se não é na seção de "Sucesos")
Notícia que se fez viral na Espanha: Um homem morre esmagado por uma rocha quando violava uma galinha em Ourense.
 6- Insultar. É muito destrutivo e ataca a auto-estima do manipulado.
(Rosa Diez de UPyD, Arcadi Espada de C's, Aznar do Pepé e José Montilla do PSOE ou a TV5 são só alguns exemplos de políticos ou empresas que não tiveram pudor de insultar galegos desde um meio de informação público... e ainda nenhum pediu desculpas. Por outra parte, os dirigentes galegos do Pepé não as pediram)

7- Desprestigiar ao manipulado aos olhos dos demais. Os mártires são eles e tu um malvado que te dedicas a extorsionar. (Na Espanha existe o "problema" nacionalista; o nacionalismo galego é insolidário; Galiza nunca melhor esteve porque o Estado é muito solidário com ela; "los nacionalistas son unos radicales", "Nosotros los constitucionalistas buenos y ellos los nacionalistas malvados ....)
8- Fazer brincadeiras agressivas com ironia. O ataque nunca é direto porque te defenderias bem, mas há que recorrer ao ataque pelas costas. Ao final segundo eles "tudo é brincadeira" dito com um sorriso nos lábios. Se insistes em culpar ao agressor finalmente vai ser que não tens sentido do humor. (Lembramos a polémica sobre as piadas de galegos? Depois dos protestos pelo racismo dos conteúdos, os média desqualificaram aos que denunciaram esse facto dizendo que não tinham sentido do humor, que os galegos tem complexos, etc....)

9- Alimentar inimizades de terceiros para fazer-che perder energia em te defenderes de outros e não defender-te do agressor principal. (Lembramos também os conflitos com os asturianistas que vêem o inimigo no Oeste e não no Sul; talvez nestes momentos se esteja tentando criar um problema com o mundo lusófono e no seu nome com Portugal pela tentativa de inclusão dos anti-reintegracionistas nas instituições lusófonas...

Conclusão: O projeto nacional imperante manipula no seu favor e em detrimento da Galiza.



terça-feira, 17 de maio de 2016

Assim se escreve a História


Por José Manuel Barbosa


O paradigma oficial recolhe a etimologia do Rio Gállego como proveniente de Flumem Gallicum, quer dizer, literalmente “Rio Gaulês”, quer dizer, proveniente da Gália. Isto é porque nasce nos Pirenéus, na mesma raia entre Aragão e a Gascunha, embora na vertente espanhola do monte “Portalet dera Nieu” em original aragonês, ou “Col d'Aneu”.
Há outra teoria que defende a origem do seu nome em que era fronteira de territórios entre as línguas célticas com línguas ibéricas hispânicas.


Se repararmos no assunto, veremos que em aragonês originário, o nome do rio é “Galligo”, já não palavra esdrúxula, mas grave, reafirmada na documentação medieval onde aparece documentado como “Galleco”. A nós ocorre-se-nos que mesmo poderia ser fronteira entre a Yilliqiya e a Espanha muçulmana, sobre tudo tendo em conta o que nos comenta Ahmad Ibn Muhammad Al-Razi na sua Ajbār mulūk Al-Andalus mais conhecida com o nome de "Crónica do Mouro Rasis". Fala-nos no seu parágrafo 18 sobre o facto de o "Rio Caliton" -nome com que os andaluzis conheciam o rio do que estamos a falar-, de regar muitas hortas em Galiza. Daí o nome de "Gállego/Galligo/Galleco". 
A algum tradutor do árabe, como Pascual de Gayangos soa-lhe impossível que o Al-Razi relacione o rio com Galiza, por isso censura a palavra "Galicia" nos seus comentários a pé de página que fez a respeito do trabalho realizado para o seu ingresso na Academia da História em 1850 intitulado "Memoria sobre la autenticidad de la crónica denominada del moro Rasis". O trabalho fez-se a partir da tradução castelhana que Ambrósio de Morales no século XV fez partindo do português. Esta obra em português à sua vez, foi uma tradução de Gil Peres feita por ordem de Dom Dinis de Portugal e que traduziu do árabe no século XIV.
O texto de Ambrosio de Morales que Gayangos apresenta e ao que nos estamos a referir está assim:


18. (…) Et há y un rio com que riegan muchas huertas en Galicia que há nombre Galiton (2), et es de Tierra de Zaragoza. 

E nas notas ao pé de página na obra de Gayangos diz-se-nos:

 (2). Em Mor. “Et há y un rio com que riegan muchas huertas en Galicia que há nombre Galiton, et es de Tierra de Zaragoza”. Lo cual no forma sentido. Galiton parece ser el Gállego, rio que desemboca en el Ebro, no lejos de Zaragoza. Esta cláusula, pues, debiera leerse de este modo: “ Et há y un rio com que riegan muchas huertas que há nombre Galiton, et es de Tierra de Zaragoza”

A supressão da palavra ”Galicia” no comentário a pé de página é uma prova de como é que se escreve a História em geral e da Galiza em particular. O texto, podemos dizer que está censurado ou se somos mais moderados, intervindo, numa tradução já por si próprio manipulada desde o seu original.

Supomos que a razão pela qual o autor omite e censura o topónimo “Galicia” é para que um leitor do século XIX compreenda que um rio que nasce e morre no Sistema Ibérico não pode ser um rio galego ou talvez, melhor exprimido, da Galiza, porque “Gállego” já é por direito onomástico. O escândalo seria grande denominar de "gállego", "gallego" ou algo similar a um rio afastado mais de 700 km da pequena Galiza. Não seria assim o mesmo se qualquer elemento castelhano se reconhecesse a milhares de quilómetros de Castela... Mesmo com isto quero lembrar a definição que Laín Entralgo no seu "A que llamamos España" faz da Andaluzia como "Castilla la Novisima"... Aqui não há exagero.
A falta de cuidado dos historiadores, dos "espertos" e implicados em reconstruir o passado faz com que a reconstrução da realidade passada se faça mais difícil por causa da "inocência" de ilustrados tão dignos, do seu compreensível desconhecimento dum passado que teoricamente querem desvendar mas em alguns casos, como o de Ximenes de Rada, Lucas de Tui ou o Bispo Pelayo de Ovedo, autêntico interesse espúrio e malícia.
O conhecimento do que era a Galiza está obstaculizado por esses elementos e assim andamos a reconstrui-lo como podemos apesar da não menos maliciosa oposição dos que vem normal que o seu mundo seja universal mas anormal que o dos demais seja não menos grande.
Isso deve mudar.
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